Luiz Alberto Machado

 

 

CANTO VERDE

 

Convém lembrar, companheiro, a vida

Para os olhos de todas as manhãs

Não permitindo ao fedor das sentenças

Vender o dia às trevas;

Convém lembrar, companheiro, a terra

Onde pisam os pés de todas as cores, raças e crenças;

O rio de todas as canoas, de todos os peixes,

De todas as cachoeiras que assobiam prá gente

Um outro sentido de vida;

O sol, manifestação real da própria existência.

Convém lembrar, companheiro,

Do sopro de todos os ventos,

Das matas de todas as flores,

Do quintal de todas as infâncias,

De todas as várzeas, todos os campos,

Todas as selvas dos bichos de todas as feras e mansas;

Das águas de todos os mares,

Todos os brejos, lagos e lagoas;

Convém lembrar, acima de tudo,

O direito de viver e deixar viver.

 


 

A LÁGRIMA DE NERUDA

 

Meus conterrâneos, eis minha missiva:

Estamos próximos do final do século

Às portas de uma nova era

Rogo, portanto, a paz

Não difiro de nada

Sou eu procedente do índio botocudo

De negros escravizados e de

Brancos degredados de Portugal

No peito um canto para Neftáli Reyes

Contra os que se devoram no dia e na noite

E a nossa dessemelhança

É o tiro que dizimou Balmaceda

Fomentando nossas hostilidades

Nosso suor ainda é vendido a preço vil

A preço de cadáveres indígenas, negros e marginalizados

As mulheres, nossas irmãs, são as mesmas

Nas favelas do Rio

Nas callampas do Chile

Nas jacabes do México

Nos barrios de Caracas

Nas barriadas de Lima

Nas vilas miséria de Buenos Aires

Nas catagrilles de Montevidéu

E uma bola de cartola ainda determina o rival

Nos gramados de Santiago do Chile

Meus conterrâneos, eis minhas palavras:

A esperança ainda é o nosso amuleto

Na estética de Huidobro: a precisão de um armistício

E de um sonho maior que o de Bolívar

 


 

ILIMÍTROFE

 

não sei de bandeiras

não sei de divisas

só sei da carne

o olho

o gesto

e

o coração

 


SANHA

 

não há valia para apreço, vale nada

não há vergonha para cara lavada

toda lisura que se expreme prá viver

e que viver!

cadê a honra para quem não tem mais nada

não há guarida para alma penada

toda usura que sublima o querer

e que poder!

mandar, não seja nobre ter rigor assim

pisar, varrer da frente algoz e querubim

quem doma a sanha não sabe dormir

e mais se ganhar para coibir

usar do relho para mais pesar

suor vermelho vibra no cantar

não há mais lance para ser carta marcada

a dura sorte já está lançada

toda estatura que se arrasta pelo chão

tal qual anão

há riso oculto para ser face velada

a traição devora a madrugada

toda espessura que comove o histrião no coração

privar da sede o pote de quem quer sorrir

traçar a sina, o rito de quem vai partir

quem doma a sanha não sabe dormir

e mais se ganha para coibir

usar do relho para mais pesar

suor vermelho vibra no cantar

 


©Luiz Alberto Machado

In: Primeira Reuniâo, Ed. Bagaço/Recife/Brasil, 1992