Alberto Augusto Miranda  

 

 

Tres poemas

 


 

 

Placenta

 

 

relembro a propaganda

os romanos hoje novaiorquinos

e

nietzsche megafonando a morte

de deus.

 

relembro deus, o clube

os ocidentais plenos do ícone

oriental e do grego christo, os ocidentais

deixados de ser

ocidentais.

 

relembro os trovões, o visível

a sementeira do medo, as carnes

ardendo na paranóia, o espectáculo

e os teatros com a mesma peça

todos os domingos.

 

e depois esse deus de dentro

só procurado porque havia um deus

de fora.

 

relembro deus não por nietzsche

o ter matado, tão pouco por ele parecer existir

às vezes

mas por ele ter dado ao destino uma normalidade

insuportável

 

A vida continua sem sentido. Relembro melhor

Artaud na sua arqueologia

ainda não há mundo

 

Vou ver.  

 

 

                    Abril 2003

 


 

Abri a boca, tinha-me esquecido.

O cão continuava a ladrar pela linfa

pela quanta.

 

Não soube o resultado do sorriso, a posta

psicológica engolia o prato, os mendicantes

tomavam

conta.

 

Outra vez era o tempo.

Nenhum olhar me pertencia 

à beira do aberto descia ao observatório

rapava a genefolia.

 

Aí, por uma luz

que não morresse à minha entrada.

 

 


 

 

desbichar as razões

em transe, vens

à invisão como um paráclito

que te desmaiasse

 

no medo de aspásia

o véu dos génitos,

temperos: o estufado

não tem subtis

 

das astúrias de leite, aquela imagem

não salva o rosto

do séquito das ilhas, a alegria

da divisão

 

perguntar o que  escorre de fero? o que

desmagoa da repetição lavadeira?

 

pela Boca do Alheio

esta noite, a minha tribo me desamiga

 

ubaldina em seu tecnicismo de couves

escuta a cozinha com ouvido  renano.O pano

 

apaga, absorve. Papel.

nessa matriz o futuro

perece

 

em filhos dos filhos,

os mortos actualizados.

 

 

                     in Dá-me Com A Noite

 

 


Alberto Augusto Miranda nasceu no dia 21 de Fevereiro de 1956 em Vila Real.  Após um longo processo de nomeação identitária, o autor concluiu, o mais cientificamente possível, que era Vadio..

Até ao momento publicou dezasseis livros, dos quais se reconhece apenas em: Dá-me com a Noite (poesia); Portografias (narrativa); Nojo (teatro); Vento (histórias para a Inocência).

Como encenador pôs em cena: Alma Até Almada a partir da obra de Almada Negreiros (1989); Ninguém Ama Ema cruzamento de Húmus de Raul Brandão e Os Sítios Sitiados de Luiza Neto Jorge (2001/2002).

Como tradutor, traduziu Alejandra Pizarnik, Angelica Liddell, Anne Sexton, Antonin Artaud, Antonio Gamoneda, Carlos Edmundo de Ory, Claudio Rodriguez, Emily Dickinson, Eunice Odio, Fernanda Castell, Héctor Rosales, Ildefonso Rodríguez, Ilhan Berk, José Angel Valente, Laura C. Skerk, Maite Dono, Manuel Lourenzo, Paul Éluard, Sabine Sicaud, Sylvia Plath, Virgínia Woolf, Alejandra Castro, Amelia Biagioni, Aurora Luque, Bashõ, Charles Baudelaire, Dania Lima, Denis Diderot, Isabel Bono, Jose Moreno Arenas, Josefina Plá, Louis Aragon, Maria Paz Moreno.

Criou e dirige as Edições do Destinatário, Edições Tema, Edições Fluviais, Edições do Buraco com propósitos vários: a) - atender ao dentro de cada um, se cada um é cada um; b) - mostrar o não mostrado pelos agentes - vários - da coisa literária; c) - criar percursos autónomos e livres para a criação e desaguação; d) - Atender ao específico e à diferença sem neles interferir; e) - particular atenção às línguas e culturas escondidas do mercado, com incidência forte na língua e cultura galegas e na criação poética latino-americana.

Estas Edições Tema, Edições Fluviais e Edições do Buraco são parte constitutiva do Departamento Literário da Sociedade Guilherme Cossoul (Av. D. Carlos I, 61-1º 1200-647 Lisboa - Portugal. Tm: 965817337; Correio electrónico: incomunidade@yahoo.com.ar). Este Departamento não vende nem distribui comercialmente os livros que edita, confia noutra coisa.