Júlio Polidoro

 

 

 

Antologia

 

 

 


 

 

 

Tempo

 

ergue          ó tempo

tua clava

carro em fogo

 

dispõe livros óculos pertences

o que não eterniza

e fica                    no quarto

(além) da casa

 

lento

sopro

foge tua presença

tão ampla            vasta

ulterior ao vento

eu

sem tempo

para tua glória

 

 

 

Perda é contingência

 

sorvemos tantos reveses

taça e fel

       

         beber

      à dor

    que nos aferra

 

 

 

Resíduo

 

escrito

dialeto de nuvem

ressurreição

no dia do juízo

 

escrevo:

tálamo das falas

 

meus olhos

citarão o fumo

meus olhos

saberão a voz

 

escrito escrito

istmo da língua

barco bêbado

o não dito

 

 

 

Antípoda

 

agora as pessoas que fui se juntam

se separam, que nunca se juntaram.

porque soltas, jamais se separaram

e unidas, não são coisas que se ajuntam.

umas caladas, que outras se besuntam

do aroma das bocas que calaram:

tudo disseram porque não falaram

porque não falaram ó, disseram tudo.

e pessoas tantas todas quero ser

que dizendo muito muito a dizer

dizem outraquelas o que não disseram.

quero quero todas e nenhuma quero:

estes seres que de noite recupero

capturo pela sua negação.

 

 

 

[ SEM TÍTULO ]

 

meu coração um ancião habita

e aponta longe o corpo que vivi

 

o corpo que vivi perante a porta

perante a porta que jamais abri

 

seria após o Éden, seus jardins?

depois viria o que não tenho em mim?

ou portas e mais portas para abrir?

sem chaves, fechaduras, sem o si?

 

não há que erguer o véu, buscar resposta

nem há o corpo longe que perdi -

mas onde a porta por detrás da porta?

 

 

 

[ SEM TÍTULO ]

 

persigo, da fala, a plena expressão

da sala nunca aberta, o corredor

que nos conduza ao Verbo sem autor

e que traduza as coisas do porão.

 

mas como seduzir a sedução

e como, sendo ovelha, ser pastor,

se a fala, como falso condutor,

tem muitas e nenhuma direção?

 

 

 

[ SEM TÍTULO ]

 

os trabalhos consumiram o dia

e dos olhos a visão da justiça.

e as palavras, num travo de cobiça,

do irmão tomou-as Perses, que o traía.

 

assim à lei dos deuses infringia

o que quisera ter, mesmo com liça,

na vastidão da terra movediça,

a posse de algo que não possuía.

 

pois que herdamos, hoje, esse travor,

no gosto da palavra consumida

que à coisa destrincha e não à vida.

 

herança de traídos, não sabemos

da terra prometida qual vetor

seguir, a reaver o que perdemos.

 

 

 

[ SEM TÍTULO ]

 

eu sei, mas por saber sei que sou parco,

tudo que não tenho é o que perco:

a morte se aproxima e fecha o cerco,

descreve uma espiral, desenha um arco.

 

sou para o oceano menos que um barco,

me sinto sobre a terra qual esterco;

fecundo esse fogo de que me acerco

com o ar que se sufoca sob o charco.

 

eu sei e por saber sei que sou pouco,

perdido, navegando como louco,

procuro por um cais que não conheço.

 

eu sei, pois por saber sei que pressinto:

no gesto de perder, que não consinto,

me enleia alguma teia que não teço.

 

 

 

[ SEM TÍTULO ]

 

dizei-me, pensador, da consciência,

que signos primeiros em vão liberta:

a fala representa a mira incerta

de uma expressão que atira na aparência.

 

há sempre o toque, ausente de tangência,

que fere o corte, mas mantém aberta

a cicatriz donde o sangue deserta,

fugindo assim da própria evidência.

 

existe alvo comum do pensamento?

e que instrumentos há para dizê-lo?

como dizer, que seja verdadeiro?

 

a fala elege todo fundamento

pela expressão que diz sem corrompê-lo –

mas que expressão no-lo dirá primeiro?

 

 

 

[ SEM TÍTULO ]

 

                                 A meus filhos

 

pai, o que é tarde?

 

unhas roídas para o sem resposta

 

mais difícil é olhar nos olhos

responder: - deus te abençoe

 

(às vezes

corro ao quarto

os abraço

sem tocá-los

 

e cresço

na escuridão

como se a conhecesse)

 

queria dar-lhes

a opção do passo:

cuidado com a pedra

salte esse buraco

repartir

o tenho medo

quero colo

 

mas este cigarro que queima

esta noite que arde

sugerem que eu diga

vamos dormir, filhos, é tarde

 

 

 

[ SEM TÍTULO ]

 

A Marta Maria C. Campagnacci

 

sim

amei alguém que foste

amaste alguém que fui

um dia

 

depois chuva

fúria, temporal

 

e cartas nunca escritas,

luar, um prédio ruindo

ao peso das idades

 

à mesa, os fantasmas

que adoramos, o vento

cavando a poeira

da mobília

 

mas amei alguém que foste

amaste alguém que fui, um dia

 

 

 

[ SEM TÍTULO ]

 

                     A Guilherme Campagnacci Polidoro

 

brandura, sol da indolência,

estive em todos os castelos

 

o futuro é essa história

que não terei

a quem contar

 

 

 

[ SEM TÍTULO ]

                            

                                A Júlia Carvalho Campagnacci Polidoro

 

deslumbramento

toque de ternura

aceso no cordão

 

dedos diminutos

no fruir

 

ah, essa infância

que mora na gente

e escreve o futuro

 

ah, alquimia

proscrita

porque outro nos tornamos

 

a criança que se cala

nos toma

o coração deserto

 

 

 

[ SEM TÍTULO ]

                                   

                                         A Luiz Ruffato

 

não digam que estive aqui

 

tudo tão triste na ausência

como se os convivas

deixassem rastos de mágoa

 

veja o espelho como dói

e a poeira vertida ao balaústre

 

a taça distante do beijo

 

não digam que estive aqui

 

saio e me deixo

distante de mim

no tempo tão triste

 

 

 

[ SEM TÍTULO ]

 

meus filhos crescem

para a herança

 

que lhes reservo

um rabisco na areia?

 

capitão dos mares

anti-herói

derrubando castelos

 

visto fantasia

mas me olham

despido

 

então me resto

e parece ser isto

que amam:

 

o que em silêncio

proclama

o coração ruidoso

 

 

 

[ SEM TÍTULO ]

 

                                 A Maria da Conceição Polidoro

 

mãe, na noite imensa

tudo é sem tamanho

 

medram sonho e pesadelo

 

lá atrás um bonde

escorre pelos trilhos

 

para onde?

 

mãe, me sinto pequeno

na noite imensa

 

vê, viceja o uniforme vermelho

o motorneiro em seu bigode

e a cadela ladrando

perdas

 

o menino sem a bicicleta

segue pedalando

 

a sombra dos que amamos

perpassa-nos, de novo

 

esta noite, mãe,

é a mesma de 1965

 

dá-me o canto,

deposita-me em teus braços,

reconte velhas histórias

 

tudo é sem tamanho

 

 

 

[ SEM TÍTULO ]

 

                                   A Prisca Agustoni

 

ascendo ao fosso.

tudo o que perco

conquisto.

 

nem a prece

conforma-me

ao horto:

dormi, amigos,

enquanto

me comovo.

 

que resta do afago,

dos vincos

do meu rosto?

 

nada se sustenta.

a dor

que me enfraquece

é a flor

que me alimenta.

 

 

 

Eis-te, sombra

 

                       A Caio Porfírio Carneiro

 

Eis-te sombra, assalto

à cercania.

A sombra falta,

aceso o candeeiro.

Tua, somente.

E a horta,

abandonada ao estio.

 

És ruína em movimento,

aurora que falece

ao rubor crepuscular.

O ato verossímil,

antes verdadeiro.

Um sabre que esgrime contra si.

 

Eis-te figurante

do primeiro descendente.

Arcabouço

de ancestrais. Eis-te.

Erguendo da

alfombra o estandarte.

 

Eis-te sempre

fasto, na pobreza.

Herói, condenação,

pasto de estrias.

O côncavo, aposto

ao convexo.

Nódoa emborcada

à travessia.

 

 

 

Minaretes de Istambul

 

                       A Eny Ribeiro de Lima

 

Muezim arranha

o céu da mesquita,

xeques do jardim de Rumi.

 

Mulá brande

o rosário da sapiência

em nosso susto.

 

A luz

arrosta a indiferença.

Minaretes de Istambul.

 

Sonhar acordado:

por dentro,

o lado de fora

é azul.

 

 

 

Quando então

 

Quando então te tornas

o falante, a surdez te isola

do convívio. A  boca

fica muda ao ouvido.

Saliva que resseca, feito cola.

 

O que antes ecoava, só ruído:

tambores de outrora, estampidos.

Relógio que corria hoje demora.

 

E a graça vige agora sob a sola

de um sapato velho, destruído.

 

A mão agride o ferro, na bigorna.

Martelo é uma ave, sem destino.

E tu, o noves-fora, o ungido,

espada que descarna o próprio umbigo.

 

 

 

Os livros me afastam da palavra

                                       

                                                                 A Edimilson de Almeida Pereira

 

Os livros me afastam da palavra.

Onde a pronúncia sem vício?

 

A interlocução que assuste

toda e qualquer dissonância.

 

Os livros nos separam.

São rios sem margem.

 

Quero o clamor inaudito

da boca embriagada.

 

Quero o rastro sem pegadas

da página em branco.

 

 

 

Amor-perfeito

  

me sou te sendo e tu me és

costura que se ata sem coser

me tens sem mim e eu sem te ter

possuo-te inteira ao revés

 

o amor eleva a onda das marés

evola-se da chama a esplender

torna-me cativo do teu ser

amante, faz-te escrava a meus pés

 

 

 

O louco

 

quem anotou a história

olvidou João-sem-nome

 

aquele que vimos todos

e dissemos: pobre!

 

esquecido no átrio

da antifábula

tornou-se menestrel

fez-nos rir pois

nos sentimos inseridos

em outra trama

que o exclui

 

mas ele, o louco,

roteiro mais cruel

subverte o calhamaço oficial

reescreve o mundo

em tom carmim

 

 

 

Pequeno ritual doméstico

                                           

                                                  A Ruy Espinheira Filho

 

mudar a disposição

da mobília

causa surpresa aos olhos

dilata o prazer

do corriqueiro

 

o jarro nos mira

com certa cerimônia

o quadro se diverte

alternando as paredes

 

é preciso jogar contra os minutos

fingir que os enganamos

enquanto trapaceiam

 

uma estranha alegria

povoa a fração

de nossa vitória

 

 

 

O círculo

  

círculos são retas no desvio

curva para dentro

autofagia

 

giro do pião

a seta

apontando-se

 

 

 

O poema nasce nu

                                   

                                     A Jean-Paul Mestas

 

o poema nasce nu

 

púrpura ou andrajo

expande ramos

para fora

e cresce rio

que a vida colore

 

roto, então sublime,

o traje

não se expressa

 

a água

borra o texto

aderna a frase

 

veste a descompor

o verso derradeiro

que morre como nasce

 

 

 

Essa fome

                           

                     A Francisco Campagnacci

 

essa fome nos dobra

à servidão

 

torce

alma e carne

consome o que comemos

nos come

e nos transforma

 

essa fome nos mata

em cada côdea de pão

em cada farelo

assalta

a crescente insaciedade

que nos mastiga

e digere

para uma outra falta

 

 

 

Aurora, crepúsculo e sol

 

mar de som e palavra

a flauta de Pã

ecoa nos quatro elementos

tão límpida, tão rara,

a simbiose dos ventos

 

viaja, de dentro para fora,

o sincronismo do céu

transportando, no tempo,

aurora, crepúsculo e sol

 

 

 

Memória do caos

  

A córnea subleva a imagem.

 

Abaixo do trópico

esta contingência

nos revela tão precários.

                                              

O que se guarda

é memória do caos,

prateleiras confusas,

nós que não desatam.

 

Trago esta angústia nos olhos.

Sinos que badalam

desde a primeira luz.

Os contornos da casa, em abandono.

                                              

Eis a memória que trago

desde a vidência do mundo.

Um acordo de contrários

sem música

de fundo.

 

 

 

[ SEM TÍTULO ]

 

O atrito da unha sobre a lousa descende ao monolito, funda o mandamento. Tatua legendas ao avesso. Fere a superfície do abismo.

Que colisões a geram: fonte, centro, verbo, palavra?

Fagulhas intraduz.

Frase na imersão, aniquilada. Pia que o batismo dialoga.

 

 

I

 

De Deus o rosto amoldo à linguagem: a veludosa tez, barbas de nuvem, espirais mais velhas que a idade.

Lábios de trovão, narinas ao contrário; ouvidos mais silentes que a ausência.

Os olhos porém, como mirá-los?

Expulsam miríades de sóis, milhões de incêndios. Calcinam o tapete em que prostramos. Derramam sobre nós sua voragem.

 

 

V

 

Do poço de Jacó abre-se a fenda. Por que, mulher, ao cântaro quebrastes? A água para sempre imergiu.

Por que cifrastes a linguagem?

Os dutos explodiram do ocaso. Sorvemos seus vapores.

 

 

VII

 

O que o tornou samaritano vem de longe. Ultrapassa o horto da paixão, o lago, a esgarça dos soldados. Pontifica do Jordão para a história.

O que o tornou samaritano ele ignora (a não ser o sangue). Centúrias jazem sob o pó. Mas ele perto estava quando a órbita se cumpria. Da roda que em torno do fato circulava.

O que o tornou samaritano ele não sabe. Um veio coleando desde a margem.

 

 

XI

 

Indignas de lustro, deponho as sandálias. Impossível mais clareza para o sol. Indigno mil vezes digo lua. A água que           absorves me batiza. Teu ser inverte a correnteza.

 

 

XII

 

Que mistérios Lázaro, resolveste? O que viste entre o sono e a miragem? Por que nenhum escriba, ao voltares?

São longos o silêncio e a pergunta. Quantos, Lázaro, volveram com teu selo?

Tu és pai da ventura e do degredo. Transcendeste o ômega e o alfa. Mas a chave dos portais não possuis.

 

 

XIV

 

Porque Tu não descansas eu me perco. Há tantas ovelhas como eu.

Juraste e nos multiplicamos. Como poderás nos resgatar?

Dos peixes e dos pães fizeste mais. Mas hoje aquela ovelha somos tantas. E dessa prontidão não descansaste. Dize, Senhor, de quantas somos, se todo o teu redil há de salvar-se.

 

 

 

 

                       


  La presente Antología, de Júlio Polidoro,

fue colgada en la Red a los

diez días andados del

mes de setiembre

del año

 2005

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